“A elite dominante do Brasil percebe o Estado como seu, não é algo compartilhado, é algo pertencente a ela.” O julgamento vem do ministro da Economia, Fernando Haddad, que esteve presente em um evento, em São Paulo, para lançar seu livro Capitalismo Hiperindustrial. Durante o evento, houve uma conversa com Haddad, Celso Rocha de Barros e mediação de Lilia Schwarcz, no Sesc 14 Bis.
“Eu defendo a alegação de que o Estado foi cedido aos fazendeiros como compensação pela abolição da escravidão”, declarou Haddad. Para dar contexto, ele recordou que o movimento dos republicanos teve início em 14 de maio de 1888 – um dia após a assinatura da Lei Áurea – e um ano depois obteve êxito.
Triunfante, o movimento republicano “afasta a classe governante do país e, em seu lugar, não coloca nada além da elite dominante do país para administrar o estado como se fosse seu. Estamos lidando com esse problema até hoje.”
“Esse ‘pacto’ sob a supervisão das Forças Armadas, quando é desafiado, a reação é rápida. Não se pode contestar isso, não se pode contestar em nenhuma circunstância. Por isso a democracia no Brasil é tão desafiadora e tão frágil, porque a democracia é a contestação desse statu quo. E, quando ela tensiona, a ruptura institucional pode ocorrer”, concluiu o ministro.
Lançamento do livro Capitalismo Superindustrial, do ministro da Fazenda Fernando Haddad, pela Companhia das Letras, com Celso Rocha de Barros e mediação de Lilia Schwarcz, no Sesc 14 Bis. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Capitalismo superindustrial
Publicado neste sábado, o livro de Haddad explora os procedimentos que conduziram ao atual modelo mundial do que ele denomina de capitalismo hiperindustrial, caracterizado por desigualdade e competição crescentes. Haddad analisa temáticas como a acumulação primitiva de capital na chamada periferia do capitalismo, a inclusão do conhecimento como fator de produção e as novas formas de estratificação social.
Para o ministro, a disparidade continuará a crescer. “Quando o estado suaviza os efeitos do desenvolvimento capitalista e estrutura a sociedade de forma moderadamente desigual, as tensões sociais diminuem consideravelmente, é verdade”, expressou.
“No entanto, abandonada à própria sorte, essa dinâmica conduz a uma desigualdade absoluta. E quando isso acontece, não estamos mais lidando com diferença, estamos tratando de contradição e processos contraditórios. E entendo que estamos neste momento, neste estágio, em que a contradição está prevalecendo”, acrescentou.
O livro reúne pesquisas sobre economia política e a natureza do sistema soviético, realizadas por Haddad nas décadas de 1980 e 1990, que foram revisadas e expandidas. Com isso, a obra também aborda os desafios apresentados pela ascensão da China como uma potência global.
Procedimentos no Oriente
“A ideia era tentar compreender o que ocorreu no Oriente que poderia se encaixar em um padrão próprio de acumulação primitiva de capital – que não se assemelha nem à escravidão nas Américas nem à servidão no Leste Europeu -, mas que, de sua forma, cada um à sua maneira, alcançou os mesmos objetivos”, detalhou.
Ele destaca que, ao contrário do que ocorreu no Leste Europeu e nas Américas, as revoluções no Oriente foram antissistêmicas e antiimperialistas. “Contra a escravidão e a servidão, o despotismo e a violência do estado serviram a propósitos industrializantes, o que não ocorreu nem no leste europeu, nem nas américas”, explicou.
“É interessante que, internamente, eram formas excessivamente violentas e coercitivas de acumulação de capital, mas externamente, tinham uma força antissistêmica que cativava os povos em busca de liberdade e emancipação nacional, e não de emancipação humana. Ou seja, estamos falando, sim, de uma revolução, mas não de uma revolução comunista e isso faz toda a diferença”, acrescentou.
Em relação aos questionamentos sobre o sucesso ou fracasso dos processos no Oriente, ele avalia que, do ponto de vista do desenvolvimento das forças de produção e da mercantilização da terra, do trabalho e da ciência, houve um avanço dessas sociedades. “Quanto às ideias que motivaram os líderes revolucionários, aí você pode dizer que não alcançaram seus objetivos”, disse, salientando a contradição evidenciada nesses processos.
Fonte: Agência Brasil