No século passado, o dinheiro dos Estados Unidos ganhou destaque como a principal moeda de reserva e comércio, ocupando uma posição elevada na economia mundial. Essa liderança, entretanto, começa a ser contestada à medida que a moeda norte-americana enfraquece e outras nações procuram se resguardar da instabilidade das taxas de câmbio e das tensões geopolíticas, reduzindo sua dependência do dólar.
Como ilustração desse contexto, o DXY, indicador que avalia a performance do dólar em relação a uma diversidade de moedas globalmente, teve uma queda de aproximadamente 10% em 2025. De forma similar, devido à sua função como reserva de valor, o metal precioso tem atingido repetidamente níveis recordes de valorização. Adicionalmente, países pertencentes a blocos econômicos, como os BRICS, estão debatendo maneiras de estabelecer relações comerciais sem a necessidade do dólar, enquanto as relações entre os EUA e a Europa sofrem devido à disputa pela Groenlândia.
Jeffry A. Frieden, docente de Relações Internacionais e Ciência Política na Universidade de Columbia, participou de uma mesa redonda sobre redução da influência do dólar durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, e defendeu que “a confiança na moeda também implica confiança no governo emissor, que garantirá a ausência de interferências políticas ou geopolíticas no uso da moeda e na estabilidade financeira monetária”.
Segundo Frieden, essa questão torna-se relevante em momentos de conflito entre os principais atores políticos globais. Ele também argumentou que, apesar da incerteza gerada pelo governo de Donald Trump, os Estados Unidos têm utilizado consistentemente, nas últimas duas décadas, o poder do dólar para alcançar objetivos geopolíticos.
Kristin J. Forbes, professora de Economia Global no MIT, concordou que, se os Estados Unidos reduzirem sua importância na economia global, haverá uma demanda menor por dólares, porém ressaltou que a moeda já perdeu valor em outras ocasiões da história, mas ainda assim mantém sua posição de destaque.
Forbes explicou que o dólar continua dominante em transações comerciais, empréstimos e que o único aspecto que merece atenção é a participação das reservas cambiais. “Os bancos centrais ao redor do mundo têm diminuído suas reservas em dólares, em parte devido a tais preocupações (geopolíticas)”. Ela também argumenta que “essa é a única área em declínio, mas o setor privado simplesmente deseja continuar conduzindo negócios com a moeda mais líquida”, concluiu.
Por último, durante sua apresentação, Kenneth Rogoff, professor de Economia Internacional em Harvard, destacou que o dólar já passou por momentos de altos e baixos, que está em declínio no momento, mas que a supremacia de uma moeda tão poderosa não se altera de maneira imediata.
Rogoff esclareceu que, para desafiar a liderança dos Estados Unidos, seria necessário “um sistema bancário e de compensação que não envolva os Estados Unidos, visto que eles não apenas possuem a principal moeda, mas também são a principal potência militar”. De acordo com ele, os chineses perceberam isso há alguns anos e estão tomando medidas para desenvolver sua própria infraestrutura de transações internacionais através de tecnologias contemporâneas.
Fonte: Bora Investir
