Impacto da Guerra do Irã nos Preços e na Economia do Brasil: Uma Análise Detalhada

Redação Valor Central
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O ataque conduzido por Norte Americano e Israelense contra o Iraque no mais recente fim de semana deixou os mercados agitados no dia seguinte (2). A principal consequência refletiu-se no petróleo, que encerrou o dia de negociações de ontem valendo US$ 82,37 por barril, com aumento de 13%.

Frente ao novo cenário na geopolítica global, especialistas e economistas de variados setores se apressaram para reavaliar os riscos envolvidos com o conflito, visando mensurar possíveis impactos sobre a economia brasileira, tanto de forma macro como microeconômica.

“Temos ainda reservas aqui para ter um impacto mais evidente no Brasil. Possuímos hoje uma posição vantajosa. Nós temos um saldo positivo na balança de petróleo, é o nosso principal item de exportação e o efeito inflacionário, ele não é óbvio”, declarou à IstoÉ Dinheiro a consultora econômica Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting.

Os maiores receios do mercado giram em torno do petróleo. Isso se deve ao fato de que mudanças abruptas na commodity tendem a gerar reflexos especialmente sobre a inflação e, por conseguinte, sobre o futuro da taxa de juros.

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A instabilidade no mercado de petróleo pode acabar provocando um efeito dominó sobre outras matérias-primas. Produtos agrícolas como soja, milho, açúcar e proteínas de origem animal podem acompanhar a alta do petróleo, uma vez que o combustível é componente essencial para fertilizantes e pode influenciar os preços dos fretes marítimos.

“A intensidade dos efeitos está diretamente ligada à extensão do conflito: se o episódio for breve, parte do prêmio de risco pode se dissipar rapidamente; no entanto, em uma situação de prolongamento, o aumento persistente do petróleo tende a pressionar a inflação e os juros, afetando com mais veemência os ativos dependentes do ciclo econômico”, afirmou Sidney Lima, Analista da Ouro Preto Investimentos.

Petróleo

Os maiores receios dos analistas estão relacionados ao que ocorrerá com o petróleo. O combustível possui forte correlação com outras commodities e representa um dos principais temas analisados na medição da taxa de inflação no Brasil.

No entanto, alguns analistas acreditam que é necessário aguardar alguns dias para obter um panorama mais claro dos acontecimentos. Segundo a avaliação do analista da Suno Research, Malek Zein, o ataque efetuado até o momento não alterou o cenário para a oferta e demanda de petróleo globalmente.

“O petróleo do Irã já é estritamente sancionado. Mesmo sendo sancionado, é amplamente consumido pela China. A curto prazo há incerteza, e a incerteza leva à volatilidade. É o que estamos observando hoje. O impacto a médio prazo deveria ser praticamente nulo, a menos que os Estados Unidos ataquem a infraestrutura petrolífera do Irã. Neste caso, poderia gerar um aumento maior, pois alteraria a curva de oferta e demanda, o que ainda não ocorreu”, afirmou Zein à IstoÉ Dinheiro.

O analista ressalta que, por enquanto, a retaliação do Irã aos ataques ficou restrita a alvos militares dos Estados Unidos no Oriente Médio. Os iranianos chegaram a realizar um ataque contra a infraestrutura da Saudi Aramco, na Arábia Saudita, porém sem prejuízos expressivos.

O maior temor do mercado é que o Irã adote medidas mais drásticas, como o fechamento do estreito de Ormuz, por onde transita de 20% a 25% do petróleo mundial. Segundo Zein, tal medida provocaria um aumento ainda maior nos preços do petróleo, o que poderia gerar uma escalada no conflito, uma vez que outros países da região seriam severamente impactados.

“O Irã fechando o Estreito de Ormuz por um mês ou mais teria um efeito catastrófico, mas o mercado ainda não está precificando isso”, comentou o analista.

Já o especialista de Mercado da Stonex, Bruno Cordeiro, adverte que é necessário analisar o cenário sob a perspectiva da exportação e importação do petróleo. Quanto à exportação, o especialista menciona que “há uma tendência de aumento na demanda pelo óleo cru produzido no Brasil, especialmente pela China”. Atualmente, o país exporta cerca de 2 milhões de barris por dia.

Cordeiro explica que o impacto nos preços dos combustíveis no país deve ser limitado. O Brasil importa entre 5% e 10% da gasolina para o consumo interno. Já para o diesel, essa proporção chega a 30%. “A repassagem desse aumento pode não ser uniforme no país. Regiões com menor capacidade de refino e maior dependência externa, como o Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste, correm um risco maior de ver essa elevação refletida nos preços para o consumidor final”, ponderou.

Inflação

Sem uma escalada mais intensa do conflito no Irã, os impactos sobre a inflação no Brasil tendem a ser mínimos. Mesmo com o aumento imediato no preço do petróleo, espera-se que os valores retrocedam ao longo das próximas semanas se o conflito permanecer nos níveis atuais.

Para Zein, a menos que o estreito de Ormuz seja fechado e o petróleo permaneça em patamares elevados por um período prolongado, a inflação no Brasil não sofrerá impactos significativos. “É preciso ver como os acontecimentos se desenrolam”, afirmou.

Na opinião de Zeina, é provável que alguns setores no Brasil sejam de certa forma afetados pelo aumento dos preços de determinados insumos. Contudo, ainda não é possível prever a extensão desses impactos. “Não mudaria substancialmente o panorama devido ao que temos hoje em mãos”, declarou.

Juros

A curto prazo, o mercado não prevê alterações na expectativa de redução dos juros no Brasil a partir de março. “Para o Copom, acreditamos que a princípio nada muda, e continuamos aguardando o início do ciclo de cortes na reunião de março. No entanto, a incerteza causada pelo conflito pode levar o Copom a encerrar o ciclo de cortes mais cedo, mas isso dependerá da duração e dimensão do conflito”, afirmou André Valério, economista sênior do Inter.

A visão é compartilhada por Zeina. Para a consultora, se o Brasil estivesse no estágio final de um ciclo de corte de juros, o Banco Central adotaria uma postura mais cautelosa, o que não é o caso atual. “Fazendo um paralelo com a situação do Fed: quando você está no final do ciclo, com a taxa de juros já perto do que chamamos de taxa neutra, então essa sintonia fina é mais vulnerável a choques. Mas não é o nosso caso”, afirmou.

Sobre o futuro dos juros no Brasil, a economista menciona que outras variáveis precisam ser incorporadas aos modelos, que vão além da guerra no Irã. Para estimar o que ocorrerá com a Selic mais adiante, ela lembra que é necessário considerar o desempenho do PIB, a situação fiscal e as eleições.

“Atualmente não vejo como um fator que poderia fazer o Banco Central alterar seus planos de corte de juros já na próxima reunião. Não vejo motivo para adotar uma postura preventiva com juros tão elevados”, destacou Zeina.

Carne de frango

Mesmo que o Irã isoladamente não represente um grande mercado para a carne de frango do Brasil, o Oriente Médio como um todo é responsável por mais de 30% das exportações brasileiras. Apenas em 2025, foram enviadas cerca de 1,6 milhão de toneladas para os países do bloco.

A maior parte desse produto acessa a região justamente por meio do Estreito de Ormuz. Com exceção da Arábia Saudita, que utiliza principalmente o porto de Jeddah, no Mar Vermelho, Emirados Árabes, Iraque, Kuwait e Catar dependem que as cargas alcancem seus portos passando por Ormuz. De fato, metade do frango brasileiro que chega ao Oriente Médio atravessa a região ameaçada pelo Irã.

Atualmente, as empresas estão avaliando os impactos reais que o conflito pode gerar sobre os embarques brasileiros. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) afirmou em comunicado que “seus associados estão mapeando e monitorando os pontos críticos da logística na área afetada pelo conflito. Neste momento, o setor está avaliando rotas alternativas que foram utilizadas em outras ocasiões de crises na região”.

Carne bovina

A indústria de carne bovina é uma das que pode sofrer mais intensamente o impacto de um agravamento do conflito com o Irã. O eventual fechamento do Estreito de Ormuz coloca em risco a venda de carne Halal, produzida e preparada conforme os preceitos da lei islâmica e que depende da rota para escoar mais de 28 mil toneladas mensais do produto.

Segundo Frederico Favacho, sócio do escritório Santos Neto Advogados, a situação atual coloca em risco a segurança dos contratos de exportação firmados pelas empresas brasileiras. “Os contratos não são imediatamente suspensos devido a força maior ou outra condição, uma vez que os exportadores brasileiros possam ter outras rotas, como, por exemplo, a do Mediterrâneo. Porém, são rotas mais caras e complexas”, afirmou.

As exportações brasileiras de carne bovina para os países árabes encerraram 2025 com crescimento de 1,91% em relação ao ano anterior, totalizando US$ 1,79 bilhão, segundo dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, que acompanha o comércio com os 22 países da Liga dos Estados Árabes, abrangendo o Norte da África e o Oriente Médio. Com esse resultado, o Brasil registrou o segundo recorde consecutivo de receitas com o bloco.

*Matéria inicialmente publicada em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir

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Fonte: Bora Investir

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